
Artigo III
O próximo vencedor do saneamento brasileiro não será definido no leilão.
Será definido na execução.
O setor deixou de competir por concessões. Agora compete por capacidade de execução.
Por Luiz Fernando Fabbriani
Sessão de Artigos e Opiniões escritos com a colaboração dos associados

Artigo III
O próximo vencedor do saneamento brasileiro não será definido no leilão. Será definido na execução.
O setor deixou de competir por concessões. Agora compete por capacidade de execução.
Por Luiz Fernando Fabbriani
Durante anos, o mercado brasileiro de saneamento viveu a emoção dos grandes leilões.
Quem pagava mais.
Quem conquistava mais concessões.
Quem anunciava o maior plano de investimentos.
Desde 2020, foram realizados 31 leilões, somando R$ 331 bilhões em investimentos contratados — sendo 82% desse valor concentrado nas privatizações da Sabesp e da Corsan.
Mas esse ciclo está mudando.
Ainda existem cerca de 13 grandes projetos em estruturação, que deverão contratar aproximadamente R$ 115 bilhões e ampliar o atendimento para quase 36 milhões de pessoas.
Mas a próxima disputa do setor será diferente.
Não será vencida por quem conquistar mais contratos.
Será vencida por quem conseguir entregar aquilo que prometeu.
Hoje, investidores, conselhos de administração e financiadores fazem uma pergunta diferente.
"Antes
Quem ganhou o leilão?
Hoje
Quem consegue executar?"
O mercado deixou de premiar quem compra ativos.
Agora premia quem transforma ativos em valor.
Essa mudança parece sutil.
Mas ela muda completamente a lógica de criação de valor das concessionárias.
"O capital existe.
O gargalo mudou."
Capital para infraestrutura nunca esteve tão disponível.
BNDES, BID, Mercado de capitais, Blue Bonds, Debêntures incentivadas, Fundos de infraestrutura, Private Equity, Investidores internacionais.
Em apenas alguns meses de 2023, Aegea e Iguá captaram juntas R$ 9,3 bilhões em debêntures incentivadas, a maior janela de captação já registrada pelo setor.
O problema deixou de ser acesso ao capital.
O verdadeiro gargalo passou a ser outro.
"Capacidade de execução."
O problema nunca esteve na modelagem.
Os estudos são robustos.
Os modelos financeiros são sofisticados.
As projeções são detalhadas.
Os contratos são robustos.
Mas, depois da assinatura, começa a realidade.
Projetos – Licenciamento – Engenharia – CAPEX - Perdas de água – Cobrança –
Tecnologia - Municípios – Reguladores – Fornecedores - Pessoas.
É justamente nessa transição — entre assinar um contrato e transformar investimentos em infraestrutura funcionando — que boa parte do valor econômico começa a desaparecer.
Os números mostram o tamanho do desafio.
Cinco anos após o Novo Marco Legal, aproximadamente 85% da população brasileira possui acesso à água, mas apenas 56% conta com coleta adequada de esgoto, e somente 65,4% têm acesso simultâneo aos dois serviços.
Mantido o ritmo atual de execução, a universalização do esgotamento sanitário ocorreria apenas em 2066.
Trinta e três anos depois da meta estabelecida pela legislação.
Outro dado chama ainda mais atenção.
Ainda faltam aproximadamente R$ 454 bilhões para universalizar o saneamento brasileiro.
Isso significa investir cerca de R$ 45 bilhões por ano.
Nos últimos cinco anos, o país investiu pouco mais de R$ 20 bilhões anuais.
O investimento precisa mais que dobrar.
"Capital financia obras.
Execução entrega infraestrutura."
Existe um enorme ativo escondido dentro das próprias concessões.
O Brasil perde, em média, 37,8% de toda a água tratada antes que ela chegue ao consumidor.
Em alguns municípios, esse índice se aproxima de 50%.
Segundo estudo da Trata Brasil e GO Associados, reduzir essas perdas para 25% poderia gerar aproximadamente R$ 40,9 bilhões em benefícios econômicos até 2034.
O dado revela algo importante.
"O maior projeto de expansão do saneamento brasileiro talvez não seja construir uma nova estação de tratamento.
Talvez seja operar melhor a infraestrutura que já existe."
A pergunta mudou.
Antes: "Quanto oferecer no leilão?"
Hoje: "Como garantir que cada real investido gere valor?"
Essa pergunta muda completamente a forma de administrar uma concessionária.
É justamente nesse contexto que algumas das concessionárias mais bem estruturadas começam a evoluir seus modelos de governança para um Performance Office.
"Não para produzir dashboards.
Não para gerar apresentações.
Mas para acelerar decisões."
Mas para conectar estratégia, engenharia, operação, comercial, financeiro e regulação em uma única rotina de decisão.
Um verdadeiro Performance Office acompanha, entre outros temas:
• Execução física e financeira do CAPEX
• EBITDA e geração de caixa
• Produtividade operacional
• Redução de perdas
• Eficiência energética
• Receita por economia
• Arrecadação e inadimplência
• Novas ligações
• Cumprimento regulatório
• Evolução da universalização
"Indicadores, por si só, não mudam uma empresa.
As decisões tomadas a partir deles, sim."
Mas, acima de tudo, acompanha uma única pergunta:
Estamos realmente criando valor?
Porque produzir indicadores é relativamente fácil.
Difícil é transformar indicadores em decisões.
Mês após mês. Obra após obra. Município após município.
O mercado entrou em uma nova fase.
A próxima liderança do saneamento brasileiro provavelmente não será definida pelos maiores investidores.
Nem pelos maiores balanços.
Nem pelos maiores financiamentos.
Será definida pela capacidade de executar milhares de pequenas decisões corretamente, todos os meses, durante os próximos anos.
Durante muito tempo, vantagem competitiva significava vencer o leilão.
Nos próximos anos, vantagem competitiva significará executar melhor do que os concorrentes.
Porque contratos não criam valor.
Projetos concluídos criam.
Indicadores acompanhados criam.
Decisões tomadas no tempo certo criam.
"O próximo vencedor do saneamento brasileiro provavelmente já venceu seu leilão.
Agora precisa vencer a execução.
Porque, no fim, concessões são conquistadas em um dia.
Valor é construído durante décadas."
Fontes:
• Trata Brasil — Distante do necessário: investimento em saneamento precisa mais do que dobrar para universalização
• Trata Brasil / GO Associados — Estudo de Perdas de Água 2024
• Poder360 — Novos leilões de saneamento devem contratar R$ 115 bilhões
• CNN Brasil — Com captações bilionárias, empresas de saneamento terão altas de investimento nos próximos anos
• CLP – Centro de Liderança Pública — O desafio do Brasil cinco anos após o Novo Marco Legal do Saneamento
#Saneamento #Infraestrutura #Governança #Performance #Execução #CAPEX #ValueCreation #PerformanceOffice
Sobre o autor: Luiz Fernando Fabbriani atua há mais de 40 anos em infraestrutura, com atuação destacada na interface entre engenharia, saneamento, energia e estruturação de investimentos. Nos últimos anos, tem se dedicado à interface entre CAPEX, execução e governança, apoiando discussões em nível de investimento e conselho.

